Parto natural: o que realmente podemos aprender com a princesa Kate?

Em março de 2018, todo o mundo se viu admirado com a imagem da princesa britânica Kate Middleton, que deixou a maternidade linda e aparentemente cheia de energia apenas 7 horas após o parto natural do terceiro filho, Louis Arthur Charles. Afinal, esse poder de recuperação tem a ver com a realeza em si ou com a força própria da mulher, preparada biologicamente para viver tal processo?

A medicina tem evoluído para uma compreensão mais sistêmica das condições físicas, sociais e psicológicas da mamãe e do bebê no momento do parto. Nessa perspectiva, é impossível responder apenas com um “sim” ou “não” a principal pergunta que envolve essa polêmica: o que aconteceu é mesmo normal?

Foi o que aprendemos ao conversar com duas profissionais da saúde: a psicóloga perinatal e doula Celma Godoy Araújo, de Bauru (SP), e a ginecologista Ana Carolina Lúcio Pereira, do Centro Médico Rio Branco, em São José dos Campos (SP). Confira!

A polêmica parto natural versus cesárea

A recuperação de Kate repercutiu em todos os países, mas teve um impacto especial no Brasil, que possui um índice de cesáreas muito acima da média: a OMS estima que 18,6% dos partos realizados no mundo recorrem à intervenção cirúrgica, enquanto essa estatística ultrapassa os 80% no Brasil quando consideramos a rede de saúde privada, e 30% se olharmos apenas para a rede pública.

“Existem indicações reais, mas também há diversas pesquisas sérias mostrando que os fatores que levam à cesárea no Brasil não são baseados em evidências. Precisamos mudar essa cultura e termos consciência de que se trata de uma cirurgia de médio a grande porte, com todos os riscos e consequências associados a esse tipo de procedimento. Ele só deve ser feito em casos indispensáveis, e não ser tratado como um “tipo” de parto”, acredita Celma.

A Dra. Ana Carolina ressalta que na Europa o parto natural é mais incentivado, mas também é garantida a assistência necessária que para ele ocorra. Existe uma preparação para acolher essas pacientes, cercadas de doulas e de acolhimento para que o processo seja menos agressivo e mais tranquilo.

“Já no Brasil, quem deseja um parto normal muitas vezes acaba fazendo pagamentos extras para ter uma rede de apoio, pois essa não é considerada uma responsabilidade direta do obstetra e do convênio médico”, explica a ginecologista.

Então, a princesa Kate não é exceção?

Obviamente, no caso da princesa o apoio é ainda mais reforçado, mas o protocolo britânico é igual para todas as mamães: a liberação da maternidade em caso de parto natural ocorre em até 10 horas.

Celma pontua que Kate provavelmente preparou-se durante as gravidezes anteriores com informações baseadas em evidências, técnicas de relaxamento, respiração e visualizações que ajudaram a manter níveis baixos de estresse e ansiedade.

“Um parto natural respeitoso, fisiológico, possibilita uma boa recuperação. Depois de duas ou três horas, a mulher já pode se levantar e cuidar de seu bebê, o que não é possível após uma cesárea. É claro que, no caso da princesa, estar bem-vestida e maquiada faz parte de um protocolo. Mas estar bem-disposta não é exclusividade dela quando se trata de partos bem assistidos”, explica.

A grande diferença, portanto, é que “as plebeias” não precisam se preocupar com a aparência tal como um membro da família real, de modo que a rede de apoio não inclui maquiador e estilista, por exemplo. Precisamos nos lembrar do mito da realeza, em que tudo precisa ser minuciosamente lindo e perfeito.

“O aparecimento da Kate bem vestida, penteada, maquiada e com saltos altos reflete a assessoria do reinado, que não permitiria exibir a princesa de sapatilhas, cabelo amarrado e mostrando suas olheiras — o que é realmente a imagem da mãe pós-parto, seja cesárea ou parto natural”, pondera a Dra. Ana Carolina.

 

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A mulher real no pós-parto

Celma afirma que uma assistência competente e humanizada durante a gravidez permite uma recuperação física e psicológica mais tranquila, mas o estado emocional certamente vai variar nos dias seguintes.

“A mãe poderá passar pelo baby blues ou não, precisando de colo para poder dar colo ao bebê. Necessitará lidar com o cansaço, com as novas demandas. Existem diferenças de mulher para mulher, mesmo as que possuem condições favoráveis”, explica a psicóloga.

Já a Dra. Ana Carolina reforça a questão do instinto materno durante esse processo, já que a mãe sentirá as mudanças hormonais e terá mais tendência à insegurança e à melancolia, mas também terá mais força para enfrentá-las, não havendo tempo nem olhos para mais nada que não seja o bebê.

“Exaustivas noites em claro, dias compridos em que não sobram horas para cuidar de si mesma e preocupações com o recém-nascido: é isso que forma o verdadeiro parâmetro de uma puérpera para todas nós. Claro que a facilidade financeira contribui para diminuir a exaustão, mas não existem fantasias: será um período difícil para todas as mamães”, finaliza a médica.

Portanto, se você se identificou com esse meme que rolou por aí, ou tem medo de acontecer o mesmo com você…

Kate Middleton 7 horas depois de ter um bebê / Eu 7 anos depois de ter um bebê

… não se desespere. Seja como for, se você e seu filho estiverem fortes e saudáveis, estará tudo bem! Tanto você quanto a princesa Kate são normais, e por maior que seja a distância social, existe algo fundamental em comum: vocês são mães e fariam de tudo para proteger a prole em primeiro lugar.

Quer saber mais sobre como a ciência entende o instinto materno? Leia também: Mãe de primeira viagem? A ciência pode te deixar tranquila!

 

 

 

 

 

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